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POR ARTUR MANUEL PIRES
O mar através de um monóculo
Um dos mais inesperados e surpreendes encontros, sem dúvida, entre dois dos mais famosos Capitães da História, ambos, largando as muitas e muito habituais imprecações, para segurarem, cada um, muito delicadamente, o seu estilizado monóculo…
O mundo parou em puro espanto, quando na terceira vinheta da terceira prancheta, de As sete bolas de cristal, o Capitão Haddock apareceu com um soberbo monóculo.
Les 7 boules de cristal, no original, foi inicialmente publicado em folhetins do jornal belga Le Soir, mais precisamente no seu suplemento Le Soir Jeunesse, iniciados em meados de dezembro de 1943 e suspensos dez meses depois, quando o seu autor, Hergé, foi envolvido num processo de colaboracionismo. Continuado em setembro de 1946, ainda em folhetim, mas já na Revista Tintin, foi concluído em abril de 1948, e quase de imediato publicado em álbum pela Editora Casterman, ficando a constituir o décimo terceiro álbum das Aventuras de Tintin.
Anos antes, em 1895, tinha acontecido algo muito semelhante, na altura em que Joseph Conrad surgiu nas ruas de Londres, com o seu chapéu de coco acompanhado de um não menos soberbo monóculo.
Os dois, Conrad e Haddock, tinham acabado de sair dos conveses dos seus navios, por circunstâncias diversas, para adotarem ambos o padrão de comportamento de autênticos gentlemens, no caso, senhores de um belíssimo palacete em Canterbury, no Kent, e do Castelo de Moulinsart, nos arredores arborizados de Paris.
Já (profundamente) inglês, o mar constituía para Conrad aquela saída do quotidiano da ilha, a fuga para fora da geografia, mas simultaneamente para dentro de si próprio, que caraterizou tantos ingleses ilustres. Pode dizer-se que o mar teve para Conrad, o mesmo significado que o deserto teve para o seu amigo T.E. Lawrence, mais conhecido por Lawrence da Arábia.
Joseph Conrad, nasceu Jósef Teodor Konrad Natecz Korzeniowski, em 3 de dezembro de 1857, em Berdychev, na Ucrânia, ao tempo parte integrante do multifacetado império russo, no seio da aristocracia polaca, numa altura em que a Polónia, crescia, diminuía, e mudava de lugar, ao sabor dos interesses dos vizinhos poderosos, e raramente dos seus próprios interesses.
Já o Capitão Archibald Haddock, com antepassados ingleses, talvez escoceses, de uma família com nomes ilustres na Marinha de França, um deles Francisco Cavaleiro de Hadoque, que serviu o Rei Luís XIV ao comando do Licorne, nasceu em Bruxelas, da mina da lapiseira Caran d’ache de Hergé, em 17 de outubro de 1940, nas páginas de O caranguejo das tenazes de ouro, publicado em folhetins no Le Soir Jeunesse, concluído um ano depois, e logo nesse mesmo ano de 1941, passado a álbum.
Na estória, Haddock comanda o cargueiro Karaboudjan, envolvido no tráfico de ópio, escondido em latas de caranguejo em conserva, desconhecido pelo capitão, mantido refém do álcool na sua cabine, pelo pérfido imediato Allan,
Conrad era um amante da disciplina efetiva, sem a qual era impossível a vida a bordo de um navio.
Desdenhava a indisciplina e odiava a disciplina meramente exterior, diz-nos dele Bertrand Russel, que acabou por nos oferecer uma sucinta e excelente descrição do escritor, de quem foi amigo fraterno – ao ponto de lhe oferecer o seu primeiro filho a batizar, e de lhe dar o nome de John Conrad – apesar das imensas diferenças que os separavam e da raridade dos seus encontros.
Ambos legítimos aristocratas, os dois homens, para além da profunda amizade e respeito pelas respetivas obras, quase apenas partilhavam em comum a paixão pela língua inglesa, que Bertrand Russel utilizava nos seus trabalhos filosóficos e matemáticos, com os quais ganhou o Prémio Nobel da literatura de 1950, e Joseph Conrad, em passagens deslumbrantes da literatura inglesa e universal.
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