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FIGUEIRA DA FOZ:

A cidade líquida com uma ilha (quase) desconhecida

O caminho faz-se em resistência, fintando o vento que corre solto pelo imenso areal: o mar é uma miragem para além das irónicas barracas de listas azuis e brancas, os passadiços parecem intermináveis. No bar a meio caminho, tudo parece querer soltar amarras e render-se à ventania. No regresso à marginal, a mesma luta: o último sábado de Agosto parece empenhado em não deixar os veraneantes a lamentarem-se pela provável despedida da praia.

Pelo contrário: parece querer dizer ide em paz. Não foi a única vez que o vento se intrometeu na nossa estada na Figueira da Foz. No primeiro dia começou a soprar ao final da tarde, mas foi bem-vindo para aliviar o calor; no segundo dia, a aparição foi na mesma altura, porém o sol não aquecia. E, chegados ao nosso último dia, foi companhia constante – assim como um casaco. “É normal que o vento aqui sopre da parte da tarde”, nota Nuno Trovão da Associação de Bodyboard da Foz do Mondego, “hoje está uma manhã invulgarmente ventosa”.

Por isso, aliás, a aula de stand up paddle (SUP) que está a decorrer, a única do dia, está no rio Mondego, deixando o mar para o bodyboard e o surf. E, veremos mais abaixo na costa, o kitesurf. É uma das bênçãos naturais da Figueira da Foz, esta confluência de mar e rio – a água, que tanto marca a identidade da cidade. Porque antes dos desportos náuticos encontrarem aqui um palco privilegiado, já havia a pesca – que se faz entre mar e rio –, as salinas e, um pouco mais no interior, os campos de arrozais. É geografia e cultura de mãos dadas na cidade que, contudo, é mais conhecida pelas praias, sobretudo as que preenchem a grande baía formada desde o Cabo Mondego e a Serra da Boa Viagem até ao molhe Norte, que vão desde Buarcos até ao Forte de Santa Catarina.

Percorremos-lhe a marginal, primeiro com o mar mesmo ao lado, nas rochas perto do cabo, entretanto, o areal começa a alargar: ao início pouco, em pequenas praias entre rochas que a maré alta oblitera; quando estamos em frente ao forte de Buarcos já é constante a faixa de areia, branquíssima, que se vai alargando e polvilhando dos característicos bares de madeira brancos e azuis, até que, passada a rotunda que “separa” Buarcos da Figueira da Foz (estátua com direito a “intervenção”: “Tirem-me de Biarritz”, de um lado, “Levem-me para Buarcos”, do outro), a areia junto à marginal ganha um tom escuro e reveste-se de vegetação rasteira, seca (e há palmeiras na praia do Viso Alto, também chamada da Claridade). A areia clara, brilhante, só se reencontra vencidos muitas centenas de metros, por uma rede de passadiços que lembra uma mini-rede viária, entretanto, campos de desporto — do voleibol (e futevólei) com pés na areia, ao futebol e basquete em pisos sintéticos —, aparelhos de manutenção, parques infantis, sucedem-se.

Seguimos em direcção à roda gigante que domina as panorâmicas da baía durante os meses de Verão (até ao final de Setembro), quase junto ao molhe norte. Pelas ruas, passam regularmente carrinhas cobertas de cartazes e altifalantes a disparar “convites” (para o circo e para a tourada) e um comboio turístico desliza de quando em quando. É Agosto na praia (mesmo que os tempos de pandemia tenham trazido menos gente — e o cenário nos carrosséis é particularmente desolador). A olhar tudo isto, preenchendo toda a baía, prédios mais ou menos anódinos — e dois edifícios modernistas que nos remetem para Miami: o amarelo-pálido Grande Hotel, recuperado e agora um Mercure Hotel, e o azul-que-já-foi-céu Piscina-Mar, com ar de inapelável abandono (anuncia-se um processo de requalificação).

Belle Époque e o Picadeiro

“Sem saber da história, ninguém imagina a elegância da Figueira na primeira metade do século XX”, nota Gonçalo Cadilhe, viajante, escritor e figueirense convicto. “Quem vê fotos a preto e branco tem uma ideia”, continua, “e se se tivesse mantido como antes da especulação estou convencido de que a marginal poderia ser integrada no Património Mundial da UNESCO”.

Nesses tempos, a Figueira da Foz era conhecida como “a Biarritz da Península Ibérica”, uma imagem que começou a delinear-se nas últimas décadas de oitocentos a par com a fama de estância balnear. Foi nessa altura, em que a aristocracia e a burguesia começaram a “ir a banhos” à Figueira, que esta deixou a sua margem ribeirinha primitiva e se virou para o Atlântico, construiu o Bairro Novo, se engalanou nas vanguardas arquitectónicas e fez nascer diversos equipamentos lúdicos que ainda hoje a marcam – o rosto pode não ser o mesmo, mas ninguém dissocia a cidade do seu casino, que surgiu no século XIX.

Não é, contudo, na marginal que os ecos mais convictos dessa Figueira da Belle Époque se fazem escutar — aí, ficam reservados à Esplanada Silva Guimarães, perto do Forte de Santa Catarina, mesmo diante da Torre do Relógio, arquitectura do Estado Novo tornada em ícone da cidade. Nessa esplanada-varanda alinham-se três edifícios que são o rosto do quarteirão virado ao mar: o Castelo Engenheiro Silva, na verdade um casarão em estilo neo-gótico, que com a sua cor clara reflecte toda a luz, o edifício do antigo turismo (em obras) e a terminar a Casa das Conchas, onde estas rematam a fachada e sobressai ainda um friso de azulejos Arte Nova. A esplanada prolonga-se, abrangendo prédios mais recentes, com várias esplanadas dentro (um café-bar-loja de artesanato, uma gelataria, por exemplo), mas a grande oferta, incaracterística, está sob a varanda, face a face com a avenida da marginal.

É nas ruas interiores, em redor do casino, que nos podemos surpreender com relances dessa transição do século XIX para o XX, em arquitectura que incorpora elementos Arte Nova e Arte Déco. Não há contudo homogeneidade e percorremos os quarteirões, delineados a régua e esquadro em ruas não muito largas, como se em busca de tesouros, entre uma amálgama de edifícios descaracterizados. Óbvio é o antigo Casino Oceano, numa esquina e impecavelmente restaurado — “o” Casino da Figueira encontra-se na outra esquina, com a sua fachada em vidro, o herdeiro do Theatro-Circo Saraiva Carvalho, fundado em 1884 como sala de espectáculos, a maior do país, palco da primeira sessão de cinema na cidade e convertido aos jogos em 1895 (no final do século XIX existiam cinco casinos no Bairro Novo), que mais tarde seria Casino Peninsular e obteve a mais antiga licença de jogo da Península Ibérica. Na mesma órbita, mas posteriores, chamam a atenção o Centro de Diversões, construído na década de 1940 em estilo Estado Novo, e a Auto Peninsular, este abandonado.

E é também nesta zona que está o epicentro da vida noctívaga da Figueira da Foz (conhecido como Picadeiro), ainda sob o beneplácito do casino, como uma velha senhora a olhar à sua volta (em tempos de pandemia a “gritar” “Estamos preparados para jogar em segurança”, como se vê por toda a cidade), a acolher espectáculos, máquinas e mesas de jogos e, não de somenos, a albergar, no seu bar com música ao vivo, os tresmalhados da noite que por estas alturas termina (mais) cedo nas ruas em volta. Nestas, desenham-se esplanadas de restaurantes e bares (nem sempre cumpridores do espaço de segurança que estes tempos exigem e perante a indiferença da polícia que até se fez notar ostensivamente) e até vemos a banda a passar (com reinterpretações musicais eclécticas: de “Bella Ciao” a “Despacito”, passando por um meddley Gloria Gaynor-Europe). Quem também passa são os veraneantes: para um lado, para o outro e repete - como uma espécie de passeio público, longe do mar.

Peixe-lua, pôr-do-sol e demasiada areia

Perto do mar está o Forte de Santa Catarina, à entrada da barra do Mondego, erguido no final do século XVI para proteger a baía e o porto, alvo de ataques constantes de corsários ingleses. A localização continua estratégica, mas agora como miradouro privilegiado para o pôr-do-sol, enquadrado pelo farol de ferro empoleirado num dos baluartes e pela roda gigante. Pedro e Rui Oliveira são os responsáveis pela esplanada Forte, onde as cervejas e os hambúrgueres artesanais dão cartas, auxiliados pelos cocktails de autor, e que pela primeira vez (estão aqui há três anos) vai manter-se aberto no Inverno (depois de um Verão “acima das expectativas” — de afluência e de clima, “só um dia de chuva”). “Queremos criar estabilidade de funcionamento e hábitos nos habitantes da cidade”, assume Pedro. O pôr-do-sol que nos cativou “é um ritual”.

Contudo, o sol na Figueira da Foz quando se põe é para todos — à beira-mar. E no molhe norte, que esconde a pequena Praia do Forte (até pode ter, segundo os dados oficiais, a pior água das praias da zona e bandeira de lotação vermelha, que cabe sempre mais um - e ainda o vendedor de “bolacha americana e bolas com ou sem creme”, como vai gritando pelo areal), os pescadores desportivos têm o lugar de honra. Na ponta do molhe, ainda se está longe dos 80 pescadores que Nuno diz já ter contado este ano. O normal, diz João Santos, é 40, 30, “às vezes, só chineses chegam aos 20”. Ele está ali faça sol ou chuva, só a hora varia, “depende das marés”. Está a encher enquanto João Santos, com movimentos lentos, deliberados, se prepara para mais uma pescaria: desenreda uma rede, agasalha-se, mostra-nos os camarões (minúsculos) que usa “para iscar”, apanhados “nos penedos de Buarcos”. Vem ao congro, robalo — ao que vier à cana. E já lhe veio uma grande (enorme) surpresa: um peixe-lua de 37 quilos. Foi há três anos, ali na ponta do molhe, à noite. “Era um bebé, os adultos chegam aos 1500 quilos”, explica. Andou 2,5 horas para conseguir tirá-lo — e logo o devolver à água, por indicação da Polícia Marítima.

Nem sempre isso sucede e quem faz da pesca a sua vida lamenta-o. “Os pescadores desportivos apanham muito peixe imaturo”, queixa-se Alexandre Carvalho, 48 anos, pescador profissional há 25 anos, depois de trabalhar nas obras. Trabalha entre o mar e o rio e assistiu ao aumento dos pescadores à cana: “Há dez anos eram 500, hoje são cinco mil e toda a gente vende em todo o lado”. Ele, profissional, tem de vender na Doca de Pesca, onde o encontramos quando um dos barcos já está a descarregar e pesar o peixe para o leilão da tarde. “2020 é o ano mais fraco de sempre”, lamenta, “não é só a pandemia, parece que o mar não tem peixe”. “Todos se queixam no país”, diz, “mas na Figueira é mais”. E não são os pescadores desportivos os (principais) responsáveis: “a erosão tem destruído os fundões”, queixa-se, “sítios onde trabalhámos há anos, que tinham 15 metros de fundura, agora têm sete”.

Voltamos ao Molhe Norte, 1,4 quilómetros de comprimento. Para norte, a beleza geofísica da Figueira da Foz — a Serra da Boa Viagem, o cabo Mondego, a baía —, mas “adulterada”, considera Gonçalo Cadilhe. A construção dos molhes que protegem a saída do rio, na década de 1960, deu início ao processo, o prolongamento do molhe norte em 2010 acelerou-o: a maior praia urbana da Europa terá, calcula-se, quase um quilómetro de extensão no seu ponto mais largo (originalmente, 70 metros) - em tempos de pandemia, tem capacidade para 23700 pessoas. Não é só na pesca que a deriva litoral tem impacto: “Quem quer fazer um quilómetro para chegar ao mar?”, interroga-se Gonçalo Cadilhe. “É um deserto. Quem quer fazer mar, vai ao Cabedelo”, afirma, “essa é agora a principal praia da Figueira da Foz”.

Água por janela

No anos de 1980, a “elegância de estância balnear” que caracterizava a marginal da Figueira, deu lugar à actual. “Nessa altura”, recorda Gonçalo Cadilhe, “as vistas de mar contavam, a frente de mar era apetecível” e então construíram-se prédios atrás de prédios, quase sem deixar espaço livre para acolher segundas residências, hotéis. “Uma tragédia”, resume. Contudo, a frente de rio, “como não interessava nada”, manteve-se como era. E agora é a “Figueira Velha”, com o coração na “Praça velha”, oficialmente Praça General Freire de Andrade (pelourinho ao centro), e virada para o Mondego. E o rio, a marina, está logo ali — do clube náutico conquista-se o rio em canoagem ou vela. E motos de água, que vemos passar amiúde. Entre o mercado municipal, de ferro vermelho, e a câmara municipal, várias praças olham o rio e desde elas saem ruas e ruelas, pequenas escadarias, num emaranhado por vezes sinuoso, não raramente empinado.

Há um certo pitoresco no cenário, semelhante ao que encontramos do outro lado da baía, em Buarcos. Mas aqui há uma fortaleza que ainda marca — restam um pano de muralhas e dois baluartes, onde se encavalitam restaurantes de peixe fresco com vista para o mar (arranjar mesa ao almoço é um caso sério). Herança, talvez, dos tempos em que era um porto de pesca, entretanto transferido para a margem esquerda do Mondego. Ainda mantém, porém, um carácter piscatório e aí abriu o Núcleo Museológico do Mar, que perpetua as memórias de séculos de convívio com o Atlântico. “Os ‘buarqueiros’ são muito orgulhosos”, diz Gonçalo Cadilhe, até porque Buarcos é mais antigo do que a própria Figueira e até foi sede de concelho até ao século XIX.

No final da marginal em Buarcos eleva-se a Serra da Boa Viagem: a estrada sobe em curvas apertadas e o miradouro do Cabo Mondego concentra carros. No local onde se formam as maiores ondas direitas da Europa, segundo os especialistas, hoje só se vê uma prancha de windsurf. O horizonte que buscamos ruma a sul: a baía não deixa ver a frente ribeirinha, mas agora Buarcos e São Julião são uma só freguesia. Que tem a água por janela.

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