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Um Mergulho na História | Por Alexandre Monteiro

No dia de hoje, 2 de Abril, mas de 1804, o naufrágio da frota britânica ao largo de Mira

 A HMS “Apollo” era uma fragata de quinta classe da Royal Navy, armada com 36 canhões, e a primeira da sua classe a ser construída, no final do século XVIII. Representava uma síntese entre agilidade, capacidade de fogo e autonomia oceânica, características essenciais numa marinha em guerra permanente com a França e os seus aliados.

A “Apollo” encomendada a 15 de Setembro de 1798, sendo construída pelos estaleiros Dudman, em Deptford Wharf. O início da sua construção deu-se em Novembro do mesmo ano, sendo lançada à água a 16 de Agosto de 1799. Tinha 44 metros de comprimento ao nível do convés da bateria principal, 37,3 metros de comprimento na quilha, uma boca máxima de 11,7 metros e um porão com 4 metros de profundidade. A sua arqueação era de cerca de 972 toneladas, o que a colocava numa categoria média de fragatas aptas a operar tanto de forma independente como em apoio a esquadras maiores. A sua tripulação era composta por 264 homens, entre oficiais, artilheiros, marinheiros e fuzileiros, o que garantia a operação contínua dos seus sistemas de navegação e combate.

O seu armamento estava cuidadosamente distribuído para maximizar o seu impacto em batalha. No convés de artilharia principal, dispunha de 26 canhões de 18 libras, capazes de disparar projéteis pesados a grande distância. No convés superior, estava equipada com 2 canhões de 9 libras e 10 carronadas de 32 libras, estas últimas especialmente eficazes em combate próximo devido à sua capacidade destrutiva. No castelo da proa, completavam o plano de artilharia mais 2 canhões de 9 libras e 4 carronadas de 32 libras.

Logo após o seu comissionamento, em Outubro de 1799, foi atribuída ao comando do capitão Peter Halkett, um oficial veterano que já comandara uma anterior fragata com o mesmo nome. A nova “Apollo” foi enviada de imediato para o mar das Antilhas, onde desempenhou missões de escolta e patrulha no contexto das Guerras Revolucionárias Francesas.

Entre 1800 e 1801, destacou-se por uma série impressionante de capturas. Em Janeiro de 1800, capturou a fragata espanhola “Aquilla”, e, dias depois, recapturou o navio britânico “Lady Harewood, então nas mãos do corsário francês “Vautour”. No final do mesmo mês, interceptou e capturou, ao largo de Havana, o navio espanhol “Cantabria”, de 18 canhões. Seguiram-se inúmeras outras ações de combate: a captura da corveta “Resolution”, de 18 canhões e 149 tripulantes, que anteriormente pertencera à marinha britânica; o chaveco “Marte”; a “Sainte Joseph”, uma escuna de 70 toneladas; e navios mercantes, como o “Santa Trinidad” e o “Virgen del Carmen”, ambos transportando valiosas cargas.

Em Fevereiro de 1801, capturou o corsário francês “Vigilant”, de 14 canhões, socorrendo ainda a tripulação da fragata britânica “Meleager”, naufragada na baía de Campeche.

Com a assinatura da Paz de Amiens em 1802, a fragata regressou a Portsmouth, sendo temporariamente descomissionada. No entanto, a paz não duraria, e logo em Outubro daquele ano, foi recomissionada, sob o comando do Capitão John William Taylor Dixon, sendo colocada ao serviço na estação naval da Irlanda, onde retomaria a sua actividade corsária e de escolta, mantendo o seu estatuto como uma das mais eficazes fragatas britânicas da viragem do século.

No dia 26 de Março de 1804, as fragatas HMS “Apollo” HMS “Carysfort” zarparam do porto de Cork, na Irlanda, como navios de escolta de uma frota mercante de 69 navios. O comboio fez rumo, primeiro a Lisboa e, depois, às Índias Ocidentais.

Durante os primeiros dias de navegação, o tempo manteve-se favorável. A “Apollo” liderava cerca de metade dos navios mercantes, que seguiam em linha, na esteira da fragata, e depois, uns atrás dos outros.

A 1 de Abril, os ventos começaram a intensificar-se, soprando do Sudoeste. Durante a noite agravaram-se ainda mais. Por volta das 03:30 da madrugada do dia 2 de Abril, quando o capitão Dixon dormia, julgando-se em mar alto, a “Apollo” embateu inesperadamente num banco de areia desconhecido. Mas como? Os cálculos náuticos da posição davam como improvável a proximidade com terra. Contudo, o navio havia-se desviado para leste sem que a tripulação se apercebesse - talvez devido a uma corrente ou a um erro de navegação, já que durante muitos dias não fora possível observar o sol.

Atrás de si, uma longa fila de navios mercantes, que seguiam cega e obedientemente os fanais de popa da fragata e depois uns dos outros, 37 ao todo, foi dando à costa, também sucessivamente. Quando amanheceu, descobriram que estavam encalhados numa longa linha paralela a uma costa arenosa batida pelas ondas, que começava na praia da Vagueira e ia até à praia da Tocha, a norte do cabo Mondego.

O primeiro embate da “Apollo” causou-lhe severos danos no casco e inutilizou o leme. O navio foi levado pelo vento e pelas ondas, e, dez minutos depois, voltou a embater com violência, ficando preso no fundo arenoso. Os mastros foram cortados para aliviar a estrutura, mas, passado pouco tempo, a violência das vagas e o peso da artilharia abriram o navio em dois, expondo os homens à fúria do mar. Rapidamente, as águas invadiram todos os compartimentos.

Os tripulantes, muitos deles nus ou em camisa, lutavam por sobreviver. Uns agarravam-se ao remanescente da mastreação, outros refugiavam-se nas correntes ou por sobre as âncoras. Alguns tentaram nadar até terra - que se avistava a dois cabos de distância (cerca de 440 metros) - mas o mar revolto levava tudo e todos. O capitão, J. W. T. Dixon, comandou com bravura até ao fim, encorajando os homens que se lançavam ao mar e tentando salvar os restantes. Morreu afogado quando, com a ajuda de uma jangada improvisada e de mais 3 marinheiros, tentou também ele alcançar terra.

Durante três dias e duas noites, cerca de 150 sobreviventes ficaram agarrados ao que restava da proa da fragata, açoitados pelo frio, pela fome e pela sede. Alguns mastigaram couro, outros pedaços de chumbo para provocar salivação. Muitos morreram afogados ou de hipotermia.

A ajuda só chegou a 4 de Abril, quando uma equipa liderada pelo tenente Harvey, o cônsul britânico na Figueira da Foz, marinheiros dos navios mercantes naufragados – que, por terem menor calado que a fragata, tinham naufragado muito perto da costa - e camponeses e pescadores portugueses conseguiram finalmente lançar um bote ao mar e resgatar através de cabos passados a terra os últimos sobreviventes.

Das 69 embarcações que seguiam sob sua proteção do comboio, 37 foram tragadas pelo mar naquela fatídica madrugada. Os nomes desses navios - hoje evocados como fantasmas silenciosos de uma frota desaparecida - contam uma história de comércio, esperança e desespero: "Active", "Albion", "Ann", "Anne", "Atlantic", "Ark", "Bristol", "Caledonia", "Charles", "Clarendon", "Dart", "Diana", "Elizabeth", "Ellen", "Erin-go-Bragh", "Fame", "Ford", "Fortitude", "Friendship", "Helen", "Jamaica", "James", "Maria", "Mary Isabella", "Minerva", "Nancy", as duas "Peggy", "Perseverance", "Providence", "Robust", "Sally", "Sebastiana", "Start", "Susannah", "Trim" e "Triton".

No total, 61 homens da Apollo pereceram.

Dos navios mercantes que se perderam na mesma costa e na mesma noite, estima-se que mais de 200 marinheiros tenham também morrido. Os destroços cobriram mais de 10 milhas de costa. Durante dias e dias, centenas de corpos foram recolhidos daquelas praias, naquela que foi uma das maiores catástrofes navais da história do comércio britânico em tempo de guerra.

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Colaboração de Alexandre Monteiro com a APP, texto respigado da página que o autor mantém no Facebook, intitulada "Um Mergulho na História".
Nesse espaço, o arqueólogo náutico e subaquático, também investigador universitário, mantém a secção "Um naufrágio por dia".
É dessa secção que respigamos o texto que aqui publicamos.

"Um Mergulho na História" trata de "Naufrágios portugueses no Mundo, património cultural subaquático de Portugal e Ilhas, arqueologia náutica e subaquática, piratas, corsários e tesouros, reais, percepcionados e imaginários submersos".
A visitar em https://www.facebook.com/mergulho.historia

Alexandre Monteiro é arqueólogo náutico e subaquático, investigador do HTC-CFE da Universidade Nova de Lisboa e membro da Academia de Marinha.

É pós-graduado em Mergulho Científico, instrutor de mergulho e mergulhador profissional, tendo projectos de arqueologia com as autarquias de Alcácer do Sal, Lagos e Esposende e, no estrangeiro, nos Emirados Árabes Unidos e na Austrália.

É consultor da UNESCO, do governo de Cabo Verde e da Missão de Combate aos Crimes contra o Património Cultural da OSCE.

É, há 25 anos, o criador das bases de dados relativos a naufrágios históricos de Portugal Continental, Açores e Madeira, bem como de Omã e Cabo Verde.

 

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